Estudo revela que 43,8% dos jovens buscam carreira militar.
Evangélicos lideram interesse pela carreira militar, aponta estudo
Pesquisa internacional revela que jovens religiosos enxergam a carreira militar como espaço de ordem, estabilidade e prestígio social
Por Cristiano Stefenoni
Os jovens evangélicos estão entre os brasileiros que mais demonstram interesse pela carreira militar no país. A conclusão aparece em um estudo internacional realizado com 2.055 jovens brasileiros sem experiência militar prévia, conduzido em parceria entre a King’s College London, a Universidade Federal de Pernambuco, a Universidade Federal de Minas Gerais e a Sciences Po.
O levantamento identificou que religião, conservadorismo e insegurança econômica aparecem fortemente ligados ao desejo de ingressar nas Forças Armadas ou nas Polícias Militares.
Em 2025, 61,5% dos jovens evangélicos demonstraram interesse em seguir carreira nas Forças Armadas, enquanto 49,3% afirmaram considerar ingresso na Polícia Militar.
O levantamento também aponta que os evangélicos representam hoje a maior fatia entre os interessados nas Forças Armadas, saltando de 30,7% em 2021 para 32,7% em 2025.
Já entre os que demonstram interesse pela Polícia Militar, os católicos aparecem ligeiramente à frente, concentrando 32,6% dos interessados, mesmo com leve queda proporcional nos últimos anos.
A pesquisa analisou 173 variáveis diferentes entre outubro e novembro de 2021, incluindo renda familiar, escolaridade dos pais, religião, visão política, percepção sobre o mercado de trabalho e afinidade com instituições militares.
O estudo recebeu o título “Tornar-se militar ou sobreviver: a inclinação dos jovens para a carreira militar em tempos de crise no Brasil” e buscou entender por que tantos jovens brasileiros enxergam a farda como um projeto de vida em meio às incertezas econômicas do país.
Entre os principais resultados, os pesquisadores identificaram que jovens evangélicos apresentaram correlação positiva mais forte com o interesse pelas Polícias Militares. Os católicos também demonstraram inclinação acima da média, embora em intensidade menor.
Segundo a análise, muitos desses jovens associam as instituições militares a valores considerados tradicionais, como autoridade, disciplina, ordem e estabilidade. O ambiente conservador presente em parte dessas corporações também apareceu como um elemento de identificação cultural e moral para entrevistados religiosos.
O estudo mostra ainda que o interesse pela carreira militar não surge apenas por razões ideológicas. A crise econômica e o medo do desemprego tiveram peso decisivo nas respostas.
Jovens que enxergavam a pandemia de COVID-19 como ameaça ao mercado de trabalho demonstraram maior propensão a considerar a carreira militar como alternativa profissional.
Benefícios como salário fixo, assistência médica, alimentação, estabilidade no emprego, aposentadoria diferenciada e possibilidade de ascensão social apareceram entre os principais fatores de atração.
Os pesquisadores dividiram a análise em duas grandes hipóteses. A primeira, chamada de “Getting by”, trata da busca por sobrevivência econômica e estabilidade profissional. Já a segunda, “Becoming”, investiga a afinidade ideológica com valores ligados à hierarquia, patriotismo e autoridade.
O resultado apontou que as duas motivações frequentemente caminham juntas. Em muitos casos, os jovens enxergam as instituições militares tanto como proteção financeira quanto como espaço alinhado à própria visão de mundo.
Outro dado relevante envolve o conservadorismo. O estudo criou um índice baseado em opiniões sobre aborto, posse de armas, legalização das drogas, pena de morte, papel da polícia e costumes sociais.
Os resultados mostraram que entrevistados mais conservadores apresentaram maior probabilidade de demonstrar interesse pelas Forças Armadas e pelas Polícias Militares. A pesquisa sustenta que muitos jovens já chegam às instituições militares com valores próximos ao ambiente hierárquico dessas carreiras, e não necessariamente passam a adotá-los somente após o ingresso.
As Forças Armadas apareceram como a opção mais desejada entre os entrevistados. Segundo os números do levantamento, 43,84% demonstraram interesse em seguir carreira no Exército, Marinha ou Aeronáutica.
Já as Polícias Militares registraram 32,16% de interesse. Os pesquisadores atribuem essa diferença à percepção de menor risco operacional nas Forças Armadas, enquanto a Polícia Militar costuma ser associada ao enfrentamento diário da violência urbana e da criminalidade.
O estudo também identificou diferenças sociais importantes. Jovens em situação econômica mais vulnerável demonstraram maior interesse pelas Polícias Militares, enxergando nessas carreiras uma oportunidade concreta de mobilidade social.
Já as Forças Armadas atraíram perfis socioeconômicos mais variados. Outro recorte apontou que homens negros e pardos apresentaram maior propensão ao ingresso em carreiras militares quando comparados a jovens brancos.
Para os autores, os resultados ajudam a retratar o Brasil contemporâneo, marcado por desemprego juvenil elevado, desigualdade social e crescente presença das instituições militares no debate público. Nesse cenário, a carreira militar continua sendo percebida por parcela significativa da juventude brasileira como uma combinação de estabilidade financeira, prestígio social e identificação com valores conservadores.
FONTE: https://comunhao.com.br/evangelicos-lideram-interesse-pela-carreira-militar-aponta-estudo/?_gl=1*wx3e80*_up*MQ..*_ga*MTUxMTgwMTU4Mi4xNzc4NzIwODEy*_ga_LLJP6M2XD3*czE3Nzg3MjA4MTEkbzEkZzAkdDE3Nzg3MjA4MTEkajYwJGwwJGgxMTY1MzIxMzE.









